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Editorial: O brasileiro e sua relação emocional com o carro - paixão que desafia a sustentabilidade
Redação Publiracing
21 de set.
3 min de leitura
Sempre que penso na relação do brasileiro com o automóvel, vejo muito mais do que um simples meio de transporte. O carro, no Brasil, é quase um personagem da nossa história. Ele representa conquista, ascensão social, liberdade e, em muitos casos, um sonho realizado depois de anos de esforço. Não é exagero dizer que, por aqui, o automóvel vai muito além das rodas: ele toca no emocional, no íntimo e até no orgulho nacional.
Enquanto na Europa o transporte coletivo ganha protagonismo e políticas públicas apostam em bicicletas, metrôs e redes ferroviárias modernas, no Brasil seguimos presos — ou ligados afetivamente — ao carro particular. Para muitos, entregar as chaves ou abrir mão de dirigir não é apenas mudar de hábito; é renunciar a um pedaço da própria identidade.
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O carro como símbolo social
Num país com desigualdades profundas, o automóvel sempre foi um divisor de águas. Ter um carro significa, para milhões, não depender de sistemas de transporte público que frequentemente são falhos, inseguros e sobrecarregados. Mais do que isso: significa afirmar uma conquista pessoal. Quem nunca ouviu alguém dizer que comprou “o primeiro carro com muito suor”?
Esse simbolismo é tão forte que impacta até as campanhas de marketing e os lançamentos de modelos. Não vendemos apenas veículos: vendemos status, autonomia e uma promessa de liberdade.
A barreira para a transição
Mas essa paixão nacional tem o seu preço. Quando falamos em transição energética — com elétricos, híbridos ou políticas de mobilidade sustentável — o apego cultural ao carro individual se torna uma barreira quase invisível, porém poderosa. Como convencer um consumidor que vê o automóvel como extensão da sua conquista pessoal a adotar alternativas coletivas ou mesmo a aceitar restrições de circulação nas cidades?
Na Europa, onde a mobilidade coletiva é eficiente e a consciência ambiental já se traduz em comportamento, a aceitação é mais natural. No Brasil, o desafio é duplo: estruturar alternativas viáveis e, ao mesmo tempo, mudar mentalidades.
A encruzilhada brasileira
Não podemos ignorar a necessidade urgente de reduzir emissões e repensar os modelos de mobilidade. O setor de transportes é responsável por quase 50% do consumo de derivados de petróleo no país, e os congestionamentos urbanos consomem horas preciosas da vida de milhões de pessoas. Mas também não podemos tratar essa transição como se fosse apenas uma questão técnica. É, antes de tudo, uma questão cultural.
Se quisermos avançar, teremos de dialogar com essa emoção que o brasileiro deposita no carro. Precisamos oferecer alternativas que não apenas funcionem, mas que também transmitam a sensação de conquista, status e liberdade. Caso contrário, o discurso da sustentabilidade continuará a parecer distante da realidade do cidadão comum.
Entre paixão e futuro
Eu não defendo que o brasileiro abandone o automóvel — essa seria uma utopia irrealista e até desrespeitosa com o meu fascínio desde que nasci pelos automóveis e pela cultura automobilística que compartilho com os brasileiros. O que defendo é que reconheçamos essa paixão, mas trabalhemos para que ela seja mais sustentável. Seja por meio do etanol, de híbridos acessíveis, de políticas públicas para transporte coletivo digno e que possibilite uma realidade integrada, ou até de novas formas de convivência entre carro e cidade.
O carro continuará a ser parte da nossa identidade. O desafio é fazer com que esse símbolo de liberdade não se torne, no futuro, um peso insustentável para o planeta e para a vida coletiva nas grandes cidades brasileiras.
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