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Mercado brasileiro deve superar 3 milhões de veículos em 2026, mas importações e queda das exportações preocupam indústria

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Redação Publiracing
há 2 minutos
6 min de leitura
Mercado brasileiro deve superar 3 milhões de veículos em 2026, mas importações e queda das exportações preocupam indústria

A indústria automotiva brasileira caminha para encerrar 2026 com o maior volume de vendas em 12 anos. A Anfavea voltou a elevar suas projeções e agora estima 3,1 milhões de veículos emplacados, crescimento de 15,2% sobre 2025. A produção também deverá avançar, mas em ritmo inferior ao das vendas, enquanto as exportações recuam e a entrada de veículos importados, sobretudo chineses, amplia a pressão sobre a cadeia produtiva nacional.


O mercado brasileiro de veículos mantém um ritmo de crescimento acima das expectativas iniciais da indústria. Os resultados do terceiro trimestre levaram a Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores (Anfavea) a revisar novamente suas previsões para 2026, repetindo o movimento realizado ao final do primeiro semestre.


A projeção de 3,1 milhões de emplacamentos representa um avanço considerável em relação à estimativa divulgada no início do ano, quando a entidade esperava crescimento de apenas 2,7%. Caso o novo cenário se confirme, o Brasil voltará a superar a marca de 3 milhões de veículos vendidos pela primeira vez desde 2014.


Entretanto, os números também revelam uma mudança importante na composição do mercado. O crescimento das vendas já não se traduz proporcionalmente em produção nacional plena, enquanto a concorrência dos importados ganha peso tanto no Brasil quanto nos principais destinos das exportações brasileiras.


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Setembro registra maior volume de vendas desde dezembro de 2014

O mercado encerrou setembro com 281,4 mil veículos emplacados, o maior resultado mensal desde dezembro de 2014. A produção chegou a 268,3 mil unidades, também o melhor desempenho para um mês de setembro desde 2014.


Nos primeiros nove meses do ano, as fábricas brasileiras produziram 2,166 milhões de autoveículos, crescimento de 8,7% em relação ao mesmo período de 2025.


Diante desses resultados, a Anfavea elevou a projeção de crescimento da produção em 2026 para 6,7%, o que corresponde a mais de 2,8 milhões de unidades. Será, caso confirmado, o maior volume produzido desde 2019.


A previsão já havia sido revista de 3,7% para 5,8% em julho, demonstrando que a recuperação do mercado doméstico tem superado sucessivamente as expectativas da entidade.


Eletrificados respondem por 69% do crescimento das vendas

O avanço do mercado está concentrado principalmente nos automóveis e comerciais leves. Segundo a Anfavea, as vendas de automóveis cresceram 22,5% no acumulado do ano, o equivalente a aproximadamente 350 mil unidades adicionais.


Desse crescimento, 84 mil veículos são atribuídos ao programa Carro Sustentável, que contribuiu para estimular as vendas de modelos de entrada.


A eletrificação, contudo, tornou-se um dos principais fatores de expansão do setor. A entidade aponta um acréscimo de 242 mil veículos eletrificados, com destaque para os modelos totalmente elétricos, cujas vendas triplicaram no período analisado.


Até setembro, os eletrificados responderam por 69% do crescimento das vendas e passaram a representar 20,1% dos emplacamentos de veículos leves novos.


Os números mostram que a eletrificação deixou de ser apenas uma tendência restrita a pequenos volumes e passou a influenciar diretamente o desempenho do mercado brasileiro. Ao mesmo tempo, a expansão desse segmento levanta questões sobre a origem dos veículos comercializados e a participação efetiva da indústria nacional na produção de componentes e sistemas de propulsão.


Produção cresce, mas montagem de kits importados concentra maior parte do avanço

Um dos dados mais relevantes apresentados pela Anfavea está na composição do aumento da produção.


Das 173 mil unidades adicionais produzidas entre janeiro e setembro, em comparação com o mesmo período de 2025, apenas 50 mil corresponderam à produção local plena.

As outras 123 mil unidades vieram de operações CKD e SKD, modalidades de montagem que utilizam conjuntos de componentes importados, completos ou parcialmente desmontados.


Isso significa que aproximadamente 71% do aumento da produção registado no período esteve associado à montagem desses kits, enquanto cerca de 29% resultou de produção local plena.


A diferença é particularmente importante porque o crescimento estatístico da produção não corresponde necessariamente a um aumento equivalente da atividade das fabricantes nacionais de componentes, da transformação industrial ou da geração de empregos.


Mercado brasileiro deve superar 3 milhões de veículos em 2026, mas importações e queda das exportações preocupam indústria
Presidente da Anfavea, Igor Calvet

O presidente da Anfavea, Igor Calvet, reconheceu os resultados positivos do mercado interno, mas alertou para os desequilíbrios que acompanham essa expansão.


"Não há como não comemorar resultados tão expressivos do mercado interno, retomando patamares não verificados há mais de uma década. Isso ajuda a impulsionar a produção e os empregos neste momento", afirmou.

Calvet também destacou que uma parcela significativa do crescimento industrial está relacionada a veículos parcialmente desmontados, especialmente kits SKD provenientes da China, que utilizam menos componentes nacionais e exigem menor participação de mão de obra nas operações de montagem.


Exportações caem 23% e Argentina perde quase 100 mil unidades

Enquanto o mercado doméstico cresce, o desempenho das exportações segue em direção oposta.


Entre janeiro e setembro, o Brasil exportou 334 mil autoveículos, uma redução de 23% em relação ao mesmo período do ano anterior.


Os embarques permanecem há seis meses consecutivos abaixo de 40 mil unidades mensais, sem sinais consistentes de recuperação.


A Argentina, historicamente um dos principais destinos da produção brasileira, concentra parte importante dessa retração. Segundo a Anfavea, as exportações para o país vizinho diminuíram quase 100 mil unidades no período.


A queda reflete a contração do mercado argentino e a perda de participação dos veículos brasileiros para concorrentes provenientes da China e do México.

Diante desse cenário, a associação reduziu novamente a previsão para as exportações de 2026, estimando agora uma retração de 17,7% no fechamento do ano.


Importações sobem 30,4% e veículos chineses ganham participação

A combinação entre menor volume exportado e crescimento das importações também alterou a balança comercial do setor automotivo brasileiro.


Nos primeiros nove meses de 2026, entraram no país 463,9 mil autoveículos importados, aumento de 30,4% em comparação com o mesmo período de 2025.


Os veículos de origem chinesa representaram 55% dessas importações, correspondendo a aproximadamente 255 mil unidades. Segundo a Anfavea, já alcançam uma participação de 11,3% no mercado nacional.


O avanço das marcas e dos produtos chineses acompanha a rápida expansão dos veículos eletrificados, mas também evidencia uma transformação mais ampla na concorrência do setor.


Para a indústria instalada no Brasil, o desafio não se limita à disputa comercial nas concessionárias. A crescente presença de automóveis importados e a expansão da montagem de kits podem reduzir a parcela de valor acrescentado efetivamente gerada no país, mesmo num período de crescimento das vendas.


Caminhões e ônibus continuam em retração

O cenário positivo dos automóveis contrasta com a evolução dos veículos pesados.

Nos primeiros nove meses do ano, os emplacamentos de caminhões recuaram 3,8%, enquanto os de ônibus diminuíram 4,4%.


Na produção, a retração foi ainda mais expressiva: 6,4% nos caminhões e 11,2% nos ônibus.


A Anfavea identifica uma recuperação lenta, associada à segunda fase do programa Move Brasil, mas não suficiente para inverter a tendência anual. A projeção para o conjunto dos veículos pesados aponta para uma queda de 6,5% em 2026.


Um mercado maior não significa necessariamente uma indústria mais forte

A nova revisão das projeções confirma que o mercado brasileiro atravessa um dos seus períodos mais fortes dos últimos anos. Superar 3 milhões de emplacamentos e regressar a níveis de produção não observados desde 2019 são indicadores relevantes para a atividade económica e para a cadeia automotiva.


Mas os dados apresentados pela própria Anfavea mostram que o crescimento está longe de ser uniforme.


As vendas deverão aumentar 15,2%, enquanto a produção crescerá 6,7% e as exportações deverão recuar 17,7%. Paralelamente, a maior parte do aumento da produção acumulada até setembro veio de operações de montagem com componentes importados.


A distinção entre vender mais veículos e produzir mais conteúdo industrial no Brasil torna-se, por isso, central para avaliar a evolução do setor.


O desafio para os próximos anos será transformar a expansão do mercado interno em investimento produtivo, desenvolvimento de fornecedores, empregos industriais e maior competitividade internacional. Sem essa correspondência, o Brasil poderá continuar a bater recordes de emplacamentos enquanto uma parcela crescente do valor gerado pelo seu mercado automotivo é capturada fora do país.


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