top of page

Editorial: Quando a terra cobra o preço da ambição - cana, soja e o dilema do biocombustível no Brasil

  • Foto do escritor: Artur Semedo artursemedo@revistapubliracing.com.br
    Artur Semedo artursemedo@revistapubliracing.com.br
  • 12 de out. de 2025
  • 3 min de leitura


Há momentos em que caminhar entre plantações deixa de ser apenas observar verde — vira observar escolhas. E ultimamente, cada hectare plantado fala mais alto do que nunca. Quando vi as projeções de que o Brasil poderá produzir 180 milhões de toneladas de soja na safra 2025/26 — algo que representa um salto de quase 10 milhões em relação ao ciclo anterior —, não pude deixar de pensar: até onde podemos expandir com responsabilidade?


Este dado, por si só, alimenta uma discussão que vai muito além dos mercados agrícolas: ele tangencia diretamente o uso da terra para biocombustíveis, a rivalidade entre alimento ou combustível, e os riscos ambientais de uma expansão sem limites.


Clique AQUI
Clique AQUI

A coexistência — ou conflito — entre cana e soja

O Brasil já é referência mundial na produção de biocombustíveis, sobretudo etanol a partir da cana-de-açúcar. Essa cadeia produtiva foi construída com avanços tecnológicos, integração energética (uso do bagaço para cogeração) e mecanismos que reduziram o impacto hídrico e emissões.


Mas hoje, com a soja também a se consolidar como commodity-chave (óleos, farelo, biodiesel) e dados robustos de safra recorde, surge o dilema: qual cultura priorizar em regiões agrícolas estratégicas? Se a expansão da soja ocupar territórios antes destinados à cana ou à agricultura diversificada, qual será o custo ambiental e social?


Além disso, a expansão agrícola costuma avançar sobre pastagens degradadas ou novas fronteiras?. Um estudo recente sugere que o Brasil pode mais do que dobrar sua produção de biocombustíveis até 2050 sem desmatar, aproveitando entre 20 e 35 milhões de hectares de pastagens já degradadas. Isso indica que há potencial — mas exige que a expansão não compita com áreas novas ou florestas remanescentes.


Alimento versus combustível: o velho dilema

Não há como ignorar o debate “food versus fuel” (“alimento contra combustível”) — com justa razão. A produção de biocombustíveis, especialmente se dependente de culturas que poderiam alimentar pessoas ou animais, pode pressionar preços, alterar a disponibilidade de grãos e gerar efeitos colaterais.


Por outro lado, há tecnologias emergentes que podem aliviar essa tensão: etanol de segunda geração (2G), uso da palha, bagaço, partes da cana ou outras matérias-primas não alimentares. Empresas brasileiras, têm trabalhado nessa direção, buscando tornar economicamente viável esse tipo de produção.


Mas, convenhamos: essas tecnologias ainda não estão maduras em escala nacional. E o risco é que, sem regulação firme, simplesmente vejamos a agricultura se expandir de forma predatória, desorganizada e desigual.


Um risco político, ambiental e social

Cada hectare convertido para soja ou cana tem implicações:

  • Pressão sobre ecossistemas, biodiversidade e cursos d’água.

  • Maior vulnerabilidade climática e risco de erosão.

  • Conflito de uso numa zona rural que já enfrenta desigualdades fundiárias e pressões sobre pequenos agricultores.

  • Dependência de insumos como fertilizantes e água em volume elevado, em um cenário de mudanças climáticas.


Isso sem contar o risco político: se o debate sobre biocombustíveis for percebido como priorizar lucro agrícola à custa de segurança alimentar ou meio ambiente, poderá haver reação pública. E o setor automotivo, que defende o etanol como alternativa de descarbonização, vira alvo de críticas e desconfiança.


Minha visão — com urgência de equilíbrio

Acredito que a resposta está no equilíbrio inteligente — e com regulação clara e forte.

  1. Planejamento territorial rígido. É inadmissível permitir que cana, soja ou outra cultura entrem em áreas protegidas ou ecossistemas frágeis.

  2. Incentivos e apoio à pesquisa 2G. Precisamos acelerar o uso de resíduos e materiais não alimentares como fonte de etanol ou biocombustíveis.

  3. Uso preferencial de áreas degradadas. Como estudos apontam, há espaço para expansão sem tocar em florestas, mas isso exige fiscalização e transparência.

  4. Políticas de segurança alimentar como guardiãs. A produção de biocombustível não pode avançar sem garantias mínimas de oferta e preço para os alimentos.

  5. Transparência e participação social. Decisões sobre uso da terra não podem ser fechadas entre grandes empresas e governos — comunidades rurais, sociedade civil e cientistas precisam opinar.


Conclusão — e um convite ao debate

Para que o Brasil avance como potência verde, não basta plantar mais: precisa plantar certo. Não basta produzir biocombustível: precisa fazê-lo com justiça, planejamento e inteligência.


Eu, que dirijo, escrevo e penso em mobilidade, reconheço que o setor automotivo tem parte nessa conversa — não como mero espectador ou beneficiário, mas como agente que depende da sustentabilidade do sistema de combustíveis. Se o etanol se torna controverso, se a crítica pública cresce, perdemos legitimidade.


Por isso pergunto: até onde você acha que podemos expandir a soja e a cana antes de cruzar uma linha perigosa? 

Já viu áreas agrícolas invadindo reservas naturais ou pequenas propriedades? Compartilhe sua visão — porque a terra fala, e precisamos escutá-la antes que seja tarde demais.


👉 “A Revista Publiracing acredita em jornalismo isento, relevante e de qualidade. Se também valoriza informação independente, considere apoiar o nosso trabalho.”

Saiba mais clicando aqui ou vá para o link de apoio abaixo



Comentários

Avaliado com 0 de 5 estrelas.
Ainda sem avaliações

Adicione uma avaliação

Testes Revista Publiracing

Alfa Romeo Junior Veloce 280 prova que um Alfa elétrico pode emocionar

Publiracing Portal de Notícias
Alfa Romeo Junior Veloce 280 prova que um Alfa elétrico pode emocionar
Alfa Romeo Junior Veloce 280 prova que um Alfa elétrico pode emocionar

Alfa Romeo Junior Veloce 280 prova que um Alfa elétrico pode emocionar

02:58
Alfa Romeo Junior Veloce 280: o elétrico que ainda sabe divertir

Alfa Romeo Junior Veloce 280: o elétrico que ainda sabe divertir

02:55
Bancos Sabelt, costuras vermelhas e ADN italiano: conheça o interior do Junior Veloce

Bancos Sabelt, costuras vermelhas e ADN italiano: conheça o interior do Junior Veloce

02:55
bottom of page