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Revista Publiracing

Editorial: Como fica o prazer de dirigir com os veículos autônomos?


Meu texto de hoje é sobre tecnologias que ocupam cada vez mais espaço no desenvolvimento tecnológico das marcas e dos seus novos projetos, os veículos autônomos. Ele dá inicio a um projeto de semanalmente deixar minha opinião sobre um tema que faz parte, naturalmente, do conteúdo editorial da Revista Publiracing e para tal reservaremos toda a quinta feira para essa publicação. Espero então que gostem e que sejam a partir de hoje leitores assíduos, não deixando de participar, comentar ou até contrariar meus comentários. Afinal trocar ideias com os amigos é uma das formas mais inteligentes de seguirmos evoluindo.

No último evento do ano da AEA (Associação Brasileira da Engenharia Automotiva), organização da qual somos orgulhosamente parceiros desde 2011 e que realiza ao longo do ano simpósios, congressos e cursos sobre o tema automóvel nas suas mais variadas vertentes, e conversando após o almoço com alguns engenheiros e executivos de algumas marcas que estão na linha da frente quando o assunto é eficiência energética e novas tecnologias, percebi o quanto os próximos passos da mobilidade e das fontes de energia “titulares” para os veículos do futuro ainda estão no campo das apostas.

Cada marca direciona suas propostas para um futuro muito próximo, veículos híbridos ou totalmente elétricos, sem esquecer a particularidade do nosso mercado, que disponibiliza um combustível não fóssil e limpo como o etanol, não esquecendo os motores a diesel e a gasolina que têm ainda um caminho a ser percorrido e que vêm sendo desenvolvidos pela engenharia das marcas para melhorar sua eficiência. Com isso fica evidente que todos estes conceitos de propulsão devem coexistir nos próximos 15 a 20 anos, pelo menos aqui no Brasil.

Mas a propulsão é apenas uma das incógnitas quanto ao futuro dos veículos. A outra, e tema de meu texto de hoje, é a tecnologia e principalmente os sistemas que tornam os veículos cada vez mais autônomos.

Neste meu raciocínio e que quero compartilhar com vocês, dividirei o publico consumidor do produto veículo automóvel em apenas dois perfis, os que gostam verdadeiramente de carros, e os que usam apenas por necessidade. É claro que na realidade as motivações e razões para a compra ou uso de um veículo são muito mais vastas, envolvendo uma série de questões muito individuais como a própria necessidade, o espaço, conforto, tecnologia, além do preço, claro.

Mas vamos lá!

Para uma grande maioria das pessoas, o carro tem como função única e exclusiva, levar do ponto A ao ponto B. São pessoas que pouco se interessam ou entendem das tecnologias que são disponibilizadas em seus veículos. Para este grupo, a opção pelo transporte individual só é mantida pela ineficaz oferta de transporte coletivo nas cidades brasileiras, nomeadamente, ônibus, trens e metrô. É um publico sem qualquer apego sentimental ao seu carro. Uma grande maioria nem gosta de dirigir, e por isso mesmo vão deixando seus carros na garagem assim que outras opções de transporte passam a ser uma realidade. É também a partir deste grupo que surgem os primeiros adeptos do compartilhamento de veículos, uma forma de reduzir os custos da propriedade de um automóvel, mas mantendo os benefícios de continuar tendo disponível para quando necessário o seu transporte individual.

Existe também outro grupo, onde naturalmente me incluo, e que é o daquelas pessoas para quem o automóvel é muito mais que um simples meio de transporte. Ele transmite um prazer inigualável ao dirigir ao som de uma boa música num dia de chuva, ou ainda curtindo o ar quente de uma noite de verão. A liberdade de descobrir novos caminhos, de poder compartilha-los com a família em momentos únicos, ou claro de sentir toda a capacidade de um veículo esportivo de alto desempenho, em sensações e emoções que nunca ninguém conseguiu explicar, a velocidade, e a capacidade que cada um de nós tem, em maior ou menor nível de desenvolvimento, de “domar” seu veículo. Assim se desenvolveu a paixão pelo automóvel.

É aqui que entra meu raciocínio quanto ao tema veículos autônomos. Cada vez mais ouvimos falar deles, dos diversos níveis de autonomia, mas parece que quem pensa no futuro dos veículos se esquece de que uma grande percentagem dos consumidores do seu produto nunca vai querer perder o prazer de verdadeiramente dirigir.

Quem gosta verdadeiramente de dirigir no máximo admite um câmbio automático, mas preferencialmente um que permita a troca de marchas manual de acordo com a sua vontade e intuição no momento.

Eu pessoalmente interpreto a autonomia aplicada principalmente na segurança, até ao ponto em que os carros conversem uns com os outros, corrigindo posicionamento nas faixas e distanciamento entre eles de modo a evitar acidentes, obrigando, por exemplo, caminhões a manterem uma distância maior em relação aos veículos ligeiros que circulam na sua frente, já que necessitam de um espaço maior para a imobilidade total em caso de uma freada de emergência, ainda corrigindo atitudes incorretas ou potencialmente perigosas dos condutores nos mais diversos níveis.

Além disso, um sistema universal de placas de transito com sensores espalhados nas ruas e rodovias, ou preferencialmente via satélite, e que conversem com o computador instalado no veículo, impedindo o condutor de superar a velocidade permitida por lei no ponto em que o veículo circula, acabando, por exemplo, com as multas por excesso de velocidade. Além disso, os sistemas eletrônicos que influenciam o comportamento dinâmico do veículo, como os imprescindíveis, controle de tração e estabilidade, e outros que vimos serem desenvolvidos e já aplicados pelas montadoras, elevando o nível de segurança até ao ponto de deixarmos de ter vitimas fatais no trânsito.

São bons exemplo disso, sistemas já disponíveis como os que evitam colisões frontais com veículos ou objetos, freando ou corrigindo de forma emergencial, outros que detectam pedestres e que também freiam automaticamente em caso de não intervenção do condutor, tecnologias já bem desenvolvidas que trazem o veículo de volta para a sua faixa quando inadvertidamente o condutor tende a ultrapassar a mesma sem ser no decorrer de uma manobra de ultrapassagem com a seta previamente ligada e sinalizando essa manobra, ou ainda sensores que já mantêm a distancia escolhida em relação ao veiculo da frente, diminuindo a velocidade ou até imobilizando totalmente, caso o veículo da frente tenha esse mesmo comportamento.

Tudo isso são automatismos e sistemas de autonomia que vejo muito favoravelmente para o presente e para o futuro no veículo automóvel. Agora um veiculo que chegue ao ponto de recolher o volante e fazer todo o trajeto escolhido comigo lendo o jornal ou respondendo a alguns e-mails, sem qualquer intervenção minha em todo o processo, creio que será o principio do fim dos veículos como os conhecemos hoje. Para carros com esse perfil, eu prefiro a opção por uma boa infraestrutura ferroviária, que nos permita deslocamentos confortáveis e rápidos como os disponibilizados em muitos países há décadas, privilegiando o transporte coletivo. É claro que sempre existirá o comportamento individualista que não é acessível a compartilhar o seu espaço com mais ninguém, algo muito comum no Brasil, mas já perdido no tempo em continentes como o europeu, onde qualquer classe social anda de trem, metrô ou ônibus, com prazer e inteligência, e mesmo que em sua garagem esteja estacionado um Audi, BMW ou Mercedes-Benz.

Espero que a engenharia das marcas caminhe para a reflexão de que o que fez do veículo automóvel ser uma das mais importantes invenções da humanidade foi precisamente a possibilidade que ele nos dá de sermos, autônomos. Observem a contradição!

Frear e acelerar de acordo com o prazer e necessidade, influenciar o comportamento do veículo, basicamente ter o fascinante domínio da máquina. Foi transmitindo esse fascínio que o veículo chegou ao século 21 ainda como objeto de desejo para muita gente.

Assim como em tudo no mundo atual, vivemos um ambiente de adaptação a novas tecnologias, que chegam cada vez mais rápido, influenciando nosso comportamento no trabalho, na rua ou em casa, e é claro que a engenharia das marcas, que sempre andou na linha da frente dos desenvolvimentos tecnológicos, e era inclusivamente ela que ditava comportamentos de consumo, de forma direta e indireta, influenciando até na importância e desenvolvimento de determinados países. Os produtores de petróleo, por exemplo, terão cada vez menos importância estratégica, e isso levará a uma nova ordem mundial.

Já a velocidade com que certos comportamentos coletivos, de preservação do meio ambiente ou outros de estímulo não tão evidente, são disseminados pelas instantâneas redes sociais e capazes de alterar tendências de forma muito rápida, praticamente imediata, o que leva a engenharia das montadoras a lidar com algo que é novo na indústria automobilística, ela vai naturalmente correr atrás de novas tecnologias, o diferencial, afinal é isso que vai fazer com que seu veículo seja diferente em relação ao concorrente, mas sempre com horizontes em termos de tempo muito menores que até aqui.

Para onde caminha o consumidor, qual o tipo de propulsão que ele vai escolher, que autonomia do seu veículo ele vai aceitar? Tudo isso são perguntas para as quais ninguém tem respostas. Cada vez mais é o publico que dita tendências e regras, e as minhas são que quero continuar a ser eu a dirigir esta incrível invenção que é o automóvel.

#EDITORIAL #OPINIÃO

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