Brasil descarta bilhões em autopeças enquanto reciclagem alcança apenas uma fração dos veículos em fim de vida


Cerca de 2 milhões de veículos chegam ao fim da vida útil todos os anos no Brasil, mas somente 1,5% teriam uma destinação considerada adequada. O desperdício vai além da questão ambiental: aproximadamente R$ 14 bilhões em peças com potencial de recuperação são descartados anualmente, segundo estimativas apresentadas pela Associação Brasileira de Reciclagem Automotiva (ABCAR).
Os números foram discutidos no Auto360 – 1º Encontro de Logística Reversa da Cadeia Automotiva, realizado pela Firjan SENAI, no Rio de Janeiro. Atualmente, o mercado brasileiro de desmontagem e reciclagem automotiva movimenta cerca de R$ 2 bilhões por ano e alcança aproximadamente 550 mil veículos. O desafio está também na concepção dos automóveis: plásticos, tecidos, espumas, fibras e materiais compostos precisam ser identificados e pensados desde o desenvolvimento para que possam ser separados, processados e reaproveitados industrialmente no fim do ciclo de utilização.
A pressão para estruturar essa cadeia deverá aumentar nos próximos anos. A partir de 2027, veículos leves das categorias M1 e N1 deverão ser projetados para que pelo menos 80% da massa seja potencialmente reutilizável ou reciclável e 85% reutilizável ou recuperável. Em 2030, esses índices sobem para 85% e 95%, respectivamente. O Brasil já produziu 1,012 milhão de toneladas de resina plástica reciclada pós-consumo em 2024, segundo levantamento da ABIPLAST citado no encontro, mas apenas 67 mil toneladas tiveram como destino o setor automotivo.
Montadoras e instituições de pesquisa começam a transformar essa necessidade em projetos industriais. A Stellantis inaugurou em 2025, em Osasco (SP), um centro dedicado à desmontagem, recuperação de componentes e reciclagem, com investimento de R$ 13 milhões e capacidade anunciada para processar até 8 mil veículos por ano. Ao mesmo tempo, institutos do SENAI pesquisam novas aplicações para resíduos, incluindo materiais têxteis transformados em componentes de isolamento acústico. A logística reversa passa, assim, a integrar uma discussão mais ampla sobre competitividade: recuperar matérias-primas e componentes deixa de representar apenas uma solução para o descarte e começa a ser tratado como parte da própria estratégia industrial.
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