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Revista Publiracing

Coronavírus e a Indústria Automobilística, o que mudou nas últimas semanas



No dia 22 de março, foi declarada calamidade pública em função da pandemia da COVID-19 e, hoje, sentimos o efeito disso com o isolamento social decretado por estados e municípios e a paralisação no comércio e na indústria para as atividades não essenciais na maioria das regiões.


Vendas derrapam

Os emplacamentos de março foram bons até o dia 20 – 9% superiores ao período equivalente em 2019. No entanto, após a declaração de calamidade pública, estiveram muito aquém, com média de 1.100 emplacamentos diários. Março fechou com vendas no varejo de 156 mil veículos contra uma previsão inicial de 230 mil unidades – uma redução de 32%.

Cassio Pagliarini e Paulo Cardamone - Bright Consulting

Em abril, os emplacamentos somaram 16.191 unidades até o dia 14, mas é provável que existam mais vendas não transformadas em emplacamento por conta do fechamento dos DETRAN´s em função do isolamento. O peso de vendas diretas subiu para 54% do volume, com boa proporção para locadoras. Dependendo da liberação do isolamento em algumas cidades de maior população, o volume emplacado poderá ser um pouco superior.


Todas as montadoras colocaram seus funcionários em férias coletivas, algumas delas estendidas até início de junho. Começam as negociações de layoff com esquemas de redução parcial de jornada e remuneração. Algumas montadoras estudam esquemas de trabalho alternado entre equipes de produção.


Confira o cronograma de férias e seu impacto nos volumes do 2º semestre:


Medidas de contenção

Os governos federais e estaduais vieram em socorro ao mercado estendendo prazos de pagamento de tributos, ao oferecer financiamentos subsidiados para pequenas e médias empresas, aporte de recursos para pessoas de baixa renda sem carteira assinada e flexibilização da legislação trabalhista. Porém, a maioria dessas soluções apenas desloca os pagamentos para frente. O próprio poder público terá dificuldades em resgatar os negócios mais combalidos pelo deferimento do imposto recolhido.


O negócio automotivo praticamente parou. O interesse pela compra de produtos despencou 90% e as pessoas que necessitam comprar um veículo – caso de sinistro, por exemplo – não encontram concessionárias e poucos DETRAN’s trabalham de modo digital. Os agendamentos de oficina caíram 60%. As montadoras e concessionários voltaram-se às atividades de contato digital com os clientes, mas são poucos aqueles que querem prosseguir com a compra neste exato momento. Prazos de manutenção e garantia foram excepcionalmente estendidos durante o isolamento.


Lançamentos durante este período, como os novos Chevrolet Tracker e Renault Duster, correm o risco de ficarem esquecidos após o reinício das atividades, o que forçará as empresas a fazerem um segundo investimento para o relançamento. Novos produtos terão seus cronogramas adiados em até 180 dias, até que seja possível reorganizar os processos de manufatura e campanhas de lançamento e que haja clientes disponíveis a comprar.


Com o potencial sucesso das medidas de isolamento social e o achatamento da curva de contágio, espera-se um gradual relaxamento das restrições à circulação e ao trabalho não essencial, algo que ainda não se demonstrou nos números. A Bright Consulting trabalha com início da retomada das atividades do comércio de veículos e da produção das montadoras no início de maio.


Revisamos nossa previsão de vendas de abril de 31 para 43 mil unidades e mantivemos os volumes de emplacamento de maio e junho, o que faz o 2º trimestre atingir 341,3 mil unidades – uma queda de 37% em relação ao primeiro trimestre de 2020. Nossa previsão de produção não se alterou, pois já considerava extensões de férias coletivas e os estoques de 266 mil unidades do final de março atendem o mercado dos próximos dois meses, obviamente com alguma deficiência no mix de veículos.

Riscos e Consequências

Inviabilização das pequenas e médias empresas - O momento é de grande temor pela saúde das pessoas. Se o isolamento ajuda na proteção da vida, a falta de ações planejadas e uma visão sobre o retorno às atividades aniquila as empresas.


Postergação das compras de veículos - A descapitalização das famílias e a menor utilização de seus veículos durante o período de quarentena devem postergar além do previsto as decisões de compra no curto prazo. São necessárias soluções ousadas para manter o cliente interessado: financiamento com início de pagamento em 2021 é um bom exemplo já implementado por algumas empresas. É preferível perder menos e vender os veículos do que ultrapassar a crise com o estoque cheio.


Desemprego - Se finalmente autorizado, o Programa Emergencial de Manutenção de Emprego e Renda (MP-936/2020) permitirá que uma parcela do emprego seja protegida com demissão proporcionalmente menor que a redução dos negócios. Mesmo assim, a queda das vendas no primeiro semestre deve acarretar uma redução de aproximadamente 10 mil empregos nas montadoras e de 20 mil posições nas autopeças. Isso sem falar na rede de distribuição: estima-se que 30% das concessionárias não consigam se sustentar por mais de 30 dias inativos sem substancial ajuda das montadoras.


Metas regulatórias - Espera-se que haja, por parte do governo, flexibilização na qualificação das montadoras às regulações de eficiência energética e segurança do programa Rota 2030 e de emissões PL7 e PL8 do Proconve. Achatar a curva das metas para evitar aumento de custos em um momento futuro de recuperação do mercado parece ser razoável. O grande risco aqui seria a postergação de datas cujos efeitos à saúde pública e à economia seriam imensos.


Desinvestimento - Corte imediato de todos os custos possíveis, redução de investimentos e engavetamento de expansões são a ordem do dia.


Atraso no socorro financeiro - A demora na oferta e na renegociação de empréstimos às empresas e adicionais linhas de capital de giro intensificará o número de falências e, consequentemente, a base do desemprego. Os executivos das redes de concessionários devem ser ligeiros e analisar com bastante atenção todas as alternativas de deferimento de impostos e financiamentos subsidiados oferecidos pelo governo.


A Grande Oportunidade

Os recentes abalos no setor automotivo relacionados à escassez de suprimentos e à forte desvalorização do Real trazem ao país uma grande oportunidade de relocalização de componentes desviados principalmente à China e ao México nos últimos anos devido à falta de competitividade da indústria.


Juntamente com as medidas de curto prazo endereçadas à falta de liquidez e sobrevivência das empresas, é fundamental que a indústria e o governo aproveitem o momento para acordar sobre a desoneração de impostos sobre produtos hoje importados, objetivando a localização da produção, que podem não gerar arrecadação num primeiro momento, mas certamente fortalecerão o mercado de trabalho e a escala necessária à melhoria da competitividade.


O momento exige rapidez e soluções ousadas. Procrastinar as decisões de corte de custos, redução de investimentos, paralisações de reformas e ajustes na folha de pagamento podem significar a diferença entre sobreviver ou não após a pandemia.


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