• Artur Semedo / Revista Publiracing e-mail:

Editorial: A crise que expõe a ausência de investimento na infraestrutura do Brasil


Neste momento tão delicado do Brasil, não poderia deixar de rabiscar umas linhas sobre esta semana atípica, mas previsível, e que tem impactado de forma severa no quotidiano dos brasileiros.

O problema é bem mais complexo que o preço do diesel. Apesar do combustível como um todo ser bastante caro por aqui, especialmente se colocarmos na balança a renda média do país, e ficando ainda mais difícil de aceitar, quando lembramos que o Brasil é produtor de petróleo e um dos países mais ricos em recursos naturais, e onde o Biodiesel e o Etanol deveriam ter um impacto muito maior sobre os preços, mas em que o estudo da respeitada Bloomberg mostra que infelizmente o Brasil tem combustíveis mais caros que países não produtores, e isso é difícil de engolir.

A infraestrutura é deficitária em todas as áreas e para todos os modais de transporte. Já aqui falei que fica mais caro transportar um produto do porto de Santos para o interior de São Paulo, que trazer esse mesmo produto da China até ao porto no Brasil. Isso fica difícil de explicar para as empresas lá fora, mas mostra o quanto os políticos negligenciaram a infraestrutura, trazendo o país para este estado, onde em cada fatura paga, do supermercado aos bens de maior valor, a carga do chamado “custo Brasil” é muito alto, e isso é responsabilidade exclusivamente da falta de capacidade da politica brasileira.

As rodovias são de péssima qualidade, salvo algumas exceções no estado de São Paulo, a grande maioria são abandonadas, sem manutenção, com péssima sinalização, pisos que mais parecem especiais de ralis off-road, e onde para agravar, não existe segurança alguma, sendo perigoso trafegar por elas durante o dia, e loucura total uma viagem noturna. Todos esses fatores, e muitos outros, fazem parte das reivindicações dos motoristas de caminhão, e claro de seus patrões, que sentem que pagam seu imposto elevadíssimo, e nada do que deveria ser o retorno desse imposto é devolvido. Esse é um sentimento não só deles, mas de toda a população.

O Brasil vem errando por décadas quando “matou” o sério investimento na ferrovia. Este modal de transporte é sabidamente a maneira mais econômica, segura, rápida e eficiente de transportar carga e pessoas por via terrestre. Apenas um trem de carga pode retirar mais de 250 caminhões das rodovias, transportando com segurança e rapidez os mais variados tipos de carga para os grandes centros urbanos.

Se focar no segmento que sigo de forma muito particular, o automotivo, recordo que lá fora a grande maioria do transporte de veículos produzidos, desde a saída das fábricas, até aos grandes centros, é realizado de trem, muito raramente se observam as chamadas “cegonhas” nas principais rodovias europeias ou americanas.

O correto investimento na ferrovia foi negligenciado, talvez porque exija planejamento e inteligência, qualidades que andam longe de fazer parte do cardápio dos nossos representantes, legislativos ou executivos. Na ferrovia, entre estudos, implantação da via e inicio das operações o tempo é bem maior que o de um mandato, e a inteligência é necessária para antecipar demandas, planejar junto dos especialistas questões urbanísticas, logísticas, entre outras. Já não falo das questões ambientais, onde para transportar uma tonelada de carga, um caminhão consome 13 vezes mais energia que um trem, isto se operado com locomotivas movidas a diesel, como é a peração no que resta da malha ferroviária brasileira, no entanto, se utilizando a energia elétrica, como inteligentemente é feito lá fora, o ganho ambiental e energético é ainda muito mais impactante.

Mas assim como a ferrovia ficou criminosamente esquecida no tempo, a aviação também sofre de infraestrutura precária, seguindo o mesmo perfil de desinvestimento sentido nos portos, onde atracam os navios que chegam com as nossas necessárias importações, e que levam as não menos importantes exportações.

O custo dos pesados caminhões nas rodovias é altíssimo, no desgaste das mesmas, que não é compensado com a devida manutenção, no custo para a saúde, com os inúmeros acidentes que provocam mortes, invalidez parcial ou total, e um custo elevadíssimo em toda a estrutura do atendimento médico e assistencial, com aposentadorias antecipadas e baixas médicas por tempo prolongado. É força motriz do país que se perde por causa dos acidentes provocados pelo excessivo numero de caminhões nas rodovias.

Ou seja, chegamos ao ponto em que a deficiente infraestrutura do Brasil parou o país, onde não existem alternativas, onde não reverte para a população o que se paga de imposto, e onde nem mesmo se consegue agradar aos principais beneficiários da historicamente errada politica de logística e transporte no Brasil, os que vendem o transporte rodoviário.

Com um país ferido gravemente pela corrupção e incapacidade politica de décadas, a população parece estar perdida ou resignada, aceitando as reivindicações dos caminhoneiros, e embora todos estejam sentindo suas necessidades básicas serem cada vez mais afetadas, no entanto, lá no intimo de cada um, parece existir o sentimento de que, “ou vai agora, na dor, ou nunca mais”.

É então chegada a hora de dizer basta a tanto politico inútil e incapaz, de dizer basta a tantos recursos bilionários gastos pelos inúmeros patamares da politica brasileira, dos municípios ao Senado, das absurdas e vergonhosas mordomias com que cada um dos nossos ilustres “representantes” são beneficiados, e que levam dos cofres públicos bilhões de reais anualmente. Se a esta conta adicionarmos a famosa corrupção, que parece ser a única especialidade da classe politica no país, o rombo feito por eles é enorme, e com toda a certeza daria para aliviar muito dos problemas, não só dos caminhoneiros, como de toda a infraestrutura no Brasil.

P.S. Na hora de dizer basta, não podemos esquecer também, de nunca mais abastecer nos postos que roubaram a população ao elevarem seus preços de maneira criminosa no decorrer da atual crise.

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